Flower
Se todos os homens procurassem nas suas imperfeições as causas de seus males, isso seria a paz perfeita, o fim das guerras e dos suplícios , o regresso à integridade original e aos esplendores paradisíacos da Idade do Ouro.
Taoismo por Jean Fabre, traduzido por Jorge Fallorca, edição da Hugin, 1999
Passava um pouco das três de uma madrugada sem igual. O azul e o branco das estrelas eram como cores do deserto, uma delicadeza tão arrepiante que eu tive que parar e pensar que poderia ser tão agradável. Nenhuma folha das palmeiras sujas se mexia. Nem um som. Tudo que havia de bom em mim tremeu no meu coração naquele momento, tudo o que eu esperava no sentido profundo e obscuro da minha existência. Aí estava a infinita placidez muda da natureza, indiferente à grande cidade; aí estava o deserto debaixo dessas ruas, em volta dessas ruas, esperando a cidade morrer, para cobri-la com as areias imemoriais de novo. Me sobreveio uma apavorante consciência do significado e do destino patético do homem. O deserto estava sempre ali, paciente animal branco, esperando as pessoas morrerem, as civilizações passarem e sumirem na escuridão. Naquele momento, os homens me pareçam valentes, e eu fiquei orgulhoso de ser um deles. Todo mal do mundo não parecia mal, mas inevitável e coisa boa e parte daquela luta sem fim para manter o deserto lá embaixo. Pergunte ao Pó, lido e traduzido através do Paulo Leminski, edição Brasiliense, 1980.